In PÚBLICO
Marta, 34 anos, esqueceu a fábrica e tornou-se empresária
Trabalhou 18 anos na fábrica da Pioneer
Marta estreia esta semana a sua empresa
Marta só conhecia o mundo da fábrica dos relatórios de encomendas. Esse mundo desabou, quando as fragilidades da indústria automóvel foram postas a descoberto pela crise. A unidade fabril da Pioneer em Portugal, onde trabalhava desde os 18 anos, não resistiu à quebra nas vendas de auto-rádios e fechou as portas em Janeiro. Marta, agora com 34 anos, perdeu o emprego. Com a indústria longe da recuperação, esta ex-operária tem uma certeza: "Fábricas nunca mais."
Trabalhou 16 anos nas instalações da multinacional japonesa, no Seixal. Primeiro como operadora de linha de produção e, mais tarde, como coordenadora de equipa. Chegou a ser promovida a técnica de electrónica e teve a oportunidade de experimentar novas áreas dentro da empresa, no departamento de logística. Mas isso foi "quando tudo corria bem", conta. "Chegámos a ser 600 trabalhadores. Cada uma das cinco linhas produzia 1040 auto-rádios por dia."
Em 2006, voltou para a operação de fabrico, com a tarefa de fazer relatórios da actividade e numa fase em que a palavra "reestruturação" começou a tomar conta dos destinos da Pioneer. "Havia demasiadas pessoas na logística para o trabalho que tínhamos. Senti que era uma regressão na carreira", explica. Eram os primeiros sinais de que o mundo que conhecia estava a mudar. "Ficámos só com duas linhas, que produziam 700 auto-rádios por dia", diz.
Em Maio do ano passado, os receios concretizaram-se. Marta foi das primeiras a deixar a empresa. "O que vou eu fazer? Só sei fazer auto-rádios", pensou. Construiu carreira num sector abalado pela conjuntura económica, mas era o único que conhecia. Já no desemprego, ainda tentou encontrar saída profissional na mesma área, mas logo percebeu que, ainda que conseguisse ser contratada, teria de se sujeitar a um salário mais baixo. "O mercado estava em crise e havia muitas pessoas à procura de trabalho", explica.
No meio de tanta incerteza, conseguiu tirar algumas conclusões e decidiu que "não queria voltar a trabalhar na indústria". Pegou na indemnização que tinha recebido pelos 16 anos na Pioneer e pediu o subsídio de desemprego acumulado. É já esta semana que se vai tornar empresária, à frente de um centro de estética, que pertence a uma rede de franchising e no qual investiu perto de 30.000 euros.